A BILHA BOA E A BILHA RACHADA
Antigamente quando não havia água encanada, algumas casas possuíam poços outras iam ao poço comum.
Ora numa casa de gente abastada, havia um empregado cuja função era ir ao poço buscar água. Para isso pendurava duas bilhas, uma em cada extremo de uma vara e colocava essa vara ao pescoço.
Quando chegava a casa, recebia por cada bilha cheia que tinha trazido. Ora uma das bilhas estava rachada e perdia metade da água pelo caminho. Assim o empregado só recebia o dinheiro de uma bilha e meia.
Mas ele continuava a trabalhar com boa vontade, pois os patrões eram bons pagadores e ele sentia que o dinheiro ganho lhe chegava.
Mas um dia, em que ia buscar as bilhas para pendurar na vara, ouviu uma conversa entre elas. Dizia a bilha boa para a rachada: tens muito pouco valor e além disso causas prejuízo ao homem que nos transporta. Comigo ele ganha o dobro do que ganha contigo.
O homem não disse nada, mas reparou que a bilha rachada andava tristonha e humilhada com as palavras que a companheira lhe dirigia.
Um dia, virou-se para o seu transportador e disse-lhe: não quero continuar a trabalhar para ti. Porquê, perguntou o homem. Só te dou prejuízo e tu podes encontrar uma bilha boa e ganhar mais dinheiro.
Então o homem pegou na bilha rachada e levou-a pelo caminho que costumava usar de casa até ao poço e virou-se para a bilha e perguntou: não notas nada neste caminho? A bilha rachada, disse-lhe: o caminho é sempre o mesmo, mas de um lado está cheio de ervas ruins e do outro lado está cheio de lindas flores.
Então o homem disse-lhe: é certo que tu perdes no caminho metade da água e eu só recebo metade do dinheiro, mas repara que as flores estão do lado em que tu passas e vais deixando cair a água; essa água não se perde, com ela tu regas as flores e eu posso enfeitar a mesa dos meus patrões com estas lindas flores. Por isso, não fiques triste, nem me queiras abandonar, pois os teus serviços são de grande valor para mim.
Com estas palavras a bilha rachada recuperou a sua auto-estima e nós podemos concluir que, mesmo com deficiências, impedimentos físicos ou falta de forças pela idade avançada, servimos sempre para algo. Só não têm valor os soberbos como a bilha boa, que se julgava a melhor coisa do mundo, sem se lembrar que o que tem lhe foi dado.
Vem isto a propósito do que se passa numa empresa criada por um deficiente. Só admite pessoal deficiente, adaptando-lhe o lugar de trabalho e a qualidade à sua deficiência. Como aqueles que eram considerados «sucata», se viram valorizados, trabalham com alegria, dão o máximo de si mesmos e a empresa neste momento de crise está em boa situação.
Maria Fernanda Barroca
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