Breves Recordações de Messines na década de 1930 -III
Tal como nos objectos o tempo cria a "patine" própria da antiguidade, também nas pessoas os anos vão deixando as suas marcas, que se traduzem na acumulação de experiências, de sabedoria, de testemunhos de vivências de outras eras e de outros valores. Talvez por isso os mais velhos gostem de compartilhar as suas memórias mais antigas como uma forma de contornar a progressão inexorável do tempo e retornar, desse modo, a uma juventude que já foi. Resido, há já mais de cinquenta anos, fora de Messines, que visito, de quando em quando. Quando se proporciona falar com algum amigo ou amiga nele residente, a fim de saber novidades, perco a noção da passagem do tempo ao telefone ... Resta-me contar com a compreensão destes meus interlocutores, para quem as "novidades" (muitas vezes de alguém que nos deixou) e o rememorar de episódios há muito acontecidos são coisas mais prosaicas, visto que se mantiveram na terra natal. Li, uma vez mais, com agrado o escrito que o António Graça Mira quis compartilhar com os leitores do Terra Ruiva. A propósito da sua referência à Rua Cândido dos Reis, caminho que eu trilhava diariamente, é com alguma mágoa que refiro a minha sensação de desolação, quando por ela agora passo e constato que é uma artéria morta, totalmente morta, socialmente falando. Quase não se vê vivalma, numa rua que se enchia de bulício e de movimento com o comércio, os moradores, as pessoas das aldeias vizinhas e da serra com os respectivos "veículos" de carga da altura, na maioria machos e mulas, que são, para os mais distraídos, animais estéreis e híbridos, resultantes do cruzamento de cavalo com burra ou de égua com burro. Uma rua é como um ser vivo. Tem alma, enquanto vive. Morrendo, mais não é do que um local de passagem. Recordo-me, em plena azáfama, nesta rua, da oficina de ferrador do senhor Inácio Nunes, da Pensão do senhor José Cabrita ( tio do Vasco Cabrita, dono de uma uma drogaria, situada às "Árvores", e felizmente ainda entre nós), do armazém de venda de cereais do senhor Vítor (pessoa originária de Silves, o único que se mantém), da mercearia do senhor Anselmo (pai do Arnaldo Patinhas), da barbearia do senhor Jaime, da loja de tecidos do senhor Manuel dos Santos, o "Manelinho" (frente à residência da D. Maria da Piedade Mascarenhas Neutel), assim como, entre outros, de vários moradores, de que me ocorrem o senhor António do Rosário, carteiro reformado e correspondente do jornal "O Século", o senhor Manuel Branquinho (contabilista na empresa Guerreiro, Cabrita & Guerreiro, Lda.), um outro de que me não ocorre o nome, feitor do senhor Neutel, e o senhor João Caetano, igualmente carteiro, cuja coisa que mais detestava era o barulho. Então, a garotada, por solidariedade, organizava, frente à sua casa, desafios de futebol com latas vazias. Não será difícil imaginar o estardalhaço, visto que o chão da rua era de macadame (do nome do seu inventor, o engenheiro inglês MacAdam), um tipo de pavimentação feito de paralelepípedes de rocha basáltica. Pouco tempo depois, era certo e sabido, o nosso esforço era recompensado. Abria-se a porta, de rompante, e aparecia o senhor João Caetano, a esbracejar e a gritar espavorido : "Malandros !". "Patifes !". "Canalhas !". Estas palavras soavam para nós como piropos. Melhor, como bonbons de chocolate. Quanto mais víamos arreliado o pobre homem, mais felizes ficávamos. Claro que o jogo terminava logo. Corria atrás de nós e era cada um a fugir para o seu lado, com a leveza de pardais. Nunca nos conseguia apanhar, porque os anos já lhe pesavam. Hoje, pedimos ao senhor João Caetano, se é que nos está a ver lá de "cima", que desculpe as nossas garotadas. Nada fazíamos por mal. Apenas nos divertíamos, dando largas à nossa traquinice de crianças. A irreverência da juventude é imemorial. É de todos os tempos. Contudo, isso não impedia que os cabelos brancos não fossem para todos nós motivo de respeito e de reverência, o que nem sempre hoje acontece. Bons tempos ! Na mesma rua, um pouco mais adiante, existiam as habitações apalaçadas da já referida D. Maria da Piedade, do irmão, senhor Neutel, pessoa invisual, e do senhor Figueiredo de Mascarenhas. Todos estes últimos eram pessoas abastadas e ligadas à agricultura. No extremo oposto da rua, num espaço imediatamente contíguo ao cemitério velho, hoje integrado na teia urbana, assisti eu a rijas e emocionantes partidas de futebol entre o Messinense e outras equipas que nos visitavam. Não se pagava o ingresso, visto que não havia bancadas nem o campo era murado. O piso era pelado e poeirento. O limite do rectângulo e as marcações interiores eram feitas no chão com cal fornecida graciosamente pelo senhor Salvador Guerreiro. Dos nossos jogadores, todos da terra, havia o Silvério Martins, o Arnaldo Patinhas e o irmão, o Pincelinho, o Manuel Correia, o Zé Caetano e, na geração seguinte, o Virgílio Serrinhas e o Zé Júlio. Entre vários outros. Todos grandes e esforçadas "estrelas", que nos proporcionaram tardes de glória. A bola era de pele de cabedal legítimo, aos gomos, cozidos interiormente (ainda se desconhecia os produtos sintéticos), tendo dentro um recipiente de "caoutchouc" (borragem virgem), que, vazio, era espalmado. Tinha um pipo, por onde se enchia. Depois de enchido o "caoutchouc", o pipo era metido para dentro e o orifício do esférico tapado com uma orelha de cabedal mais fino. Há "flashes" que nos ficam para sempre. Estou a visualizar claramente as filas de pobres que se formavam, semanalmente, todos os sábados, para receber esmola, junto à casa do senhor Neutel (atrás referido), a quem um dos seus criados ia distribuindo, conforme o grau de pobreza da pessoa, uma moeda de um ou de dois tostões. Para que se faça uma ideia aproximada do valor da esmola, refira-se que um pão custava, na altura, três escudos e trinta centavos ou, como se dizia, "três mil e trezentos" (subentendendo-se, no final, a palavra "reis", que é uma corruptela de "reais"). Este preço do pão vigorou durante muitíssimos anos. Era um preço tabelado, que não podia ser alterado, conforme determinação de Salazar, visto que era a base do alimento das classes mais humildes. Ora,"três escudos e trinta centavos" eram "trinta e três tostões". Um preço que, sem tabelamento, seria ainda mais alto. Veja-se, pois, durante quantas semanas um daqueles pobres teria que receber esmola de um tostão ou de dois tostões, conforme o seu estatuto de pobreza, para que pudesse comprar um pão. Um simples pão ! QUE ME PERDOEM SE OFENDO ALGUÉM NAS SUAS CONVICÇÕES RELIGIOSAS. EU TAMBÉM SOU CRENTE EM DEUS, MAS SEMPRE OLHEI E SENTI A CARIDADE ( há quem lhe chame a "caridadezinha" ) COMO UMA INDIGNIDADE E UM PEJORATIVO PARA A PESSOA HUMANA. ONTEM, HOJE E SEMPRE ! ESTES FORAM PARTE DOS VALORES QUE ME DEU A BEBER, EM PEQUENO, ALGUÉM QUE PARTIU MUITO CEDO E ME DEIXOU PARA SEMPRE.
No artigo publicado em Novembro no Jornal "Terra Ruiva" e da autoria do vosso habitual colaborador Aurélio Nuno Cabrita, o autor sai em defesa de aquilo que chama o "Centro Antigo de Messines". Da sua agradável leitura veio-me à memória alguns dos edifícios que conheci situados no perímetro urbano que Aurélio Nuno define como centro antigo de Messines.
Começo pela Rua Cândido dos Reis, no sentido de quem vem do lado do cemitério velho. Assim, em determinada altura, do nosso lado esquerdo, surge um belo edifício a "Casa Grande" residência da sua proprietária D. Maria da Piedade Mascarenhas Noutel. Casa apalaçada era para mim, na minha sensibilidade de garoto, uma das mais bonitas da aldeia. A frente revela um traçado arquitectónico muito equilibrado e elegante.
Trata-se de um edifício do século XIX à semelhança de outros mais, adentro de tal perímetro urbano já referenciado, e que se evidenciaram da malha urbana da povoação, formada de um modo geral por um conjunto de casas quase sempre térreas.
Fazia-se a sua entrada por uma bonita portada que dava acesso a um amplo patamar, no qual se inseria uma escada que conduzia ao piso superior que constituía a área residencial. Este edifício era servido também por um largo portão de ferro, situado na extrema esquerda da sua fachada, permitindo o acesso de carros às traseiras da casa. Nestas nascia uma escada que conduzia directamente à ampla cozinha do edifício e que continha no centro uma grande mesa de trabalho, coberta por um vistoso tampo de pedra branca de mármore.
Dona Maria da Piedade era amiga íntima de minha mãe. Ao tempo por falta de telefones, e porque ambas pouco ou raramente saíam à rua, aliás apanágio de quase todas as senhoras daquela época, estabeleciam entre si um intercâmbio de missivas, de que eu era portador, das que minha mãe enviava para a D. Maria da Piedade. Fazia-o com alguma frequência, sempre gostosamente, pois em casa desta senhora, havia o hábito de se fazerem, frequentemente, bolos grandes, como pão de ló, bolo mármore ou só de chocolate, dos quais sempre era presenteado com grossa fatia que muito apreciava.
Ouvia por vezes dizer minha mãe que a sua amiga sofria de dores de cabeça e por isso me recomendava que em sua casa não fizesse barulho. Daí que apesar de viver com duas filhas e mais o pessoal doméstico imperava sempre um silêncio profundo, naquela casa.
No lado contrário da rua, e frente à "Casa Grande" situava-se outro edifício sem arquitectura digna de registo, nele residindo o seu proprietário Senhor Joaquim Mascarenhas Noutel, irmão de D. Maria da Piedade Noutel. Este senhor possuía à semelhança de sua irmã, propriedades agrícolas. Era cego, e se via alguma coisa seria muito pouco. Recordo-me de o ver caminhar com relativo desembaraço, utilizando um forte cajado. Possuía este senhor, numa dependência do rés-do-chão de sua casa, uma telefonia como então se designavam os rádios. Funcionava com energia fornecida por baterias, e tinha uma antena constituída por um extenso fio de cobre com baixada à terra também em cobre, que servia para neutralizar qualquer descarga eléctrica produzida por uma trovoada.
Na época a Emissora Nacional, então recentemente inaugurada, transmitia em dias certos um programa de fados e guitarradas.
Em frente à farmácia de meu pai existia um estabelecimento de barbearia do qual era proprietário o Sr. Manuel Cunha, homem de baixa estatura e amante do fado. Dedilhava com algum saber uma guitarra, que muito me agradava ouvir, e por isso sempre que me oferecia a ocasião era seu fiel ouvinte. O Sr. Manuel Cunha frequentava a casa do Sr. Noutel para ouvir o programa já referido, emitido pela E.N. e porque sabia do meu apreço por fados, com prévia autorização de meu pai, levava-me pela sua mão a ouvir o tal programa de fados e guitarradas.

